A recente divulgação pelo Departamento de Justiça de mais de 3 milhões de páginas relacionadas aos crimes de Jeffrey Epstein provocou indignação, não por causa do que revelou sobre os homens poderosos envolvidos, mas por causa de como expôs os sobreviventes. Os ficheiros, divulgados em 30 de janeiro, continham informações pessoais não editadas – incluindo endereços de e-mail e fotografias de nus – identificando vítimas que anteriormente tinham optado por permanecer anónimas, muitas vezes para se protegerem de assédio ou de novos traumas.
O problema central: priorizar o sigilo em vez da segurança
A forma como o DOJ lidou com a divulgação demonstra um claro preconceito. Embora protegesse agressivamente as identidades dos associados de Epstein, não conseguiu estender a mesma consideração àqueles que ele abusou. O procurador-geral adjunto, Todd Blanche, admitiu que “os erros são inevitáveis” e ofereceu uma linha de denúncia para relatar erros, mas os sobreviventes e defensores chamam isso de uma resposta desdenhosa a uma violação profundamente prejudicial.
“Como sobreviventes, nunca deveríamos ser os nomeados, examinados e retraumatizados enquanto os facilitadores de Epstein continuam a beneficiar do sigilo.”
O dano é irreversível. Uma vez que os nomes e imagens das vítimas se tornam públicos, elas permanecem expostas, correndo o risco de assédio, intimidação e mais danos emocionais. A divulgação viola os direitos de privacidade e desconsidera as leis de proteção contra estupro destinadas a proteger os sobreviventes em processos judiciais.
Um padrão de silenciamento institucional
Este não é um erro isolado; reflete um padrão mais amplo do DOJ que prioriza a proteção de indivíduos poderosos em detrimento da segurança das vítimas. Como argumenta Leigh Gilmore, professor da Ohio State University, este é um caso de “visibilidade gerenciada”, em que informações cuidadosamente selecionadas são divulgadas para proteger os abusadores e, ao mesmo tempo, expor aqueles que eles prejudicaram.
O facto de Epstein, possivelmente o traficante mais notório da história, ter operado impunemente durante anos e de nenhum dos seus co-conspiradores ter enfrentado consequências significativas reforça a mensagem de que o silêncio é mais seguro do que procurar justiça. A conselheira de saúde mental Kathryn Stamoulis destaca isto: “O nosso país não se preocupa com as vítimas de abuso sexual”.
As ações do DOJ não são apenas falhas administrativas; eles são sistêmicos. Ao publicar os nomes e fotos das vítimas, o governo traumatiza novamente os sobreviventes e reforça a dinâmica de poder que permitiu a Epstein operar durante tanto tempo. A impunidade da elite de que gozam os seus associados permanece intacta, enquanto aqueles que ele abusou continuam a sofrer as consequências.
Em última análise, a divulgação falha dos ficheiros de Epstein sublinha uma verdade perturbadora: a responsabilização dos poderosos é muitas vezes sacrificada em detrimento daqueles que eles prejudicam.

























